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Argentina, mas aqui também…

02/11/22

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Dois filmes excelentes, a serem vistos em conjunto se possível! “Azor”, de Andreas Fontana (2021) e “Argentina, 1985”, de Santiago Mitre (2022) tratam de aspectos distintos da ditadura militar argentina.
Azor é um fime mais complexo e denso, que trata da visita de De Wiel, um banqueiro suíço, à Argentina. Ele está substituindo um sócio, Keys, que sumiu misteriosamente. Ficamos sem saber o que ocorreu com Keys. O mesmo desparecimento ocorre com uma filha de um fazendeiro investidor. Tudo é narrado com discrição. Nada explícito.
Em “Argentina, 1985”, vemos encenado o julgamento dos fascistas argentinos. O filme narra a montagem do processo e a busca de provas contra o terrorismo de Estado. O testemunho de muitas vítimas do horror é parte essencial do filme, além claro do trabalho do promotor Strassera que coordena o trabalho judicial. Dentre os múltiplos horrores, o desaparecimento de pessoas é apenas uma das atrocidades.
É importante ver os dois filmes juntos porque é fundamental entender o fascismo em suas múltiplas faces. O fascismo não pode ser reduzido nem à loucura perversa, nem aos efeitos mais atrozes de um capitalismo selvagem. O fascismo enquanto terrorismo de Estado é um fenômeno complexo que é sustentado por múltiplas forças.
Há o perverso sádico que goza na tortura e no estupro, o louco que acredita estar defendendo o país e a “família” de uma ameaça comunista, mas há também o homem comum que participa da banalidade do mal, que conduz seus negócios.
Uma das cenas mais terríveis de Azor é quando De Wiel vai pra um lugar escondido do Exército e ali um oficial lê uma série de bens fruto dos sequestros e roubos dos militares: tantos relógios, isqueiros, carros etc… Nada é mostrado de forma pornográfica – como nos filmes que mostram as pilhas de bens deixadas por judeus antes de serem levados aos campos de concentração. Apenas mencionado, insisto, discretamente.
“Azor”, aliás, signfica “fique calado, cuidado com o que você diz”. Uma expressão suíça, mas que cabe bem nas ditaduras latinoamericanas. Aliás, outro ponto forte de “Azor” é mostrar essa rede invisível e, no entanto, óbvia: quem lucra com o fascismo? Qual o papel dos bancos na operação concreta do mal?
A cena que mais gostei de “Argentina, 1985” é quando a mãe de Ocampo, promotor auxiliar de Strassera, ao ouvir os relatos tenebrosos de tortura, pergunta ao filho: “é verdade isso que elas dizem?”, e o filho responde que sim. Isso é capital: uma mulher comum, classe média, católica, que acreditou nas mentiras comuns dos militares, de que estavam defendendo o país, de que defendiam a família contra o comunismo etc… quando, na verdade, estupravam, matavam, sequestravam bebês, jogavam pessoas de aviões… A cena é fundamental porque esse é também um dos fundamentos do fascismo. Não é possível que um regime assim se sustente a não ser que muitas pessoas acreditem nessas teorias conspiratórias absurdas. Talvez sejam essas teorias que auxiliam nos processos de defesa denegatórios necessários para que não se veja ou se diminua o horror.
Recomendo muitíssimo os dois filmes. Lamentavelmente, no Brasil, não tivemos o julgamento dos militares. Ainda colhemos os frutos do fascismo na política e no dia a dia. Bolsonaro foi um pesadelo recente fruto dessa absurda “anistia”, um pacto de esquecimento que sempre cobra seu preço. Parte dele, sabemos, sempre pago em dinheiro vivo sabe-se lá pra quais bancos na Suíça…